Na Arca de Noé', o universo de Vinicius
Patrícia Cassese
REPÓRTER
Com nove anos de carreira, três discos lançados, Carlos Navas resolveu, no ano passado, investir em outra seara. Mais precisamente, a do público infantil. Com a cara e a coragem, formatou o show 'Na Arca de Noé', com as eternas canções do poetinha Vinícius de Moraes. Clássicos como 'Aula de Piano', 'O Pato', 'A Pulga' e 'As Abelhas'. O espetáculo, ele começou a apresentar pelos palcos do Brasil em junho de 2004. Agora, o repertório ganha registro em CD com 'Algumas Canções da Arca...', que leva a chancela da Movieplay. O disco também pode ser adquirido no site oficial do artista (www.carlosnavas.com.br). Em entrevista ao HOJE EM DIA, Navas falou sobre o novo desafio, discorreu sobre a obra do poetinha e sobre o mercado da música direcionada à petizada. Confira, a seguir.

O CD é fruto do espetáculo musical 'Na Arca de Noé'. Porque você resolveu montar um show direcionado ao público infantil?
Na verdade, sempre quis fazer algo dirigido às crianças. Esperava, ingenuamente, que fosse convidado, mas, analisando meu caminho musical, que nada tinha de infantil, percebi que era melhor eu ir à luta. No final de 2003, após o lançamento do disco 'Tanto Silêncio', passei por um período emocional bastante difícil, tive depressão. Como sou espiritualizado, recebi este aviso do Universo: Eu deveria me aproximar mais da energia das crianças. Senti que a iniciativa seria musical. Lembrei-me das canções da 'Arca de Noé', que, definitivamente, marcaram minha vida. Fui escutá-las novamente, já separando aquelas às quais sentia que poderia dar uma interpretação diferente, renovada. Procurei dois músicos (Adriano Magoo/pianista e Wlájones de Carvalho/ percussionista). Fomos formatando o repertório e, enquanto isso, mandava o Projeto do Show para os Sesc's do interior de SP. Acabaram se interessando e estreamos dia 6 de Junho, num Ginásio em Bauru, para cerca de 600 pessoas.

Como você avalia o feedback deste trabalho?
Estava muito preocupado, pois meu discurso de palco e repertório nada tinham de infantil. Antes de fazer o show, tive uma breve conversa com a atriz Clarisse Abujamra, com quem divido o palco há quatro anos (espetáculo 'Por um Triz'). Ela me deu toques fundamentais: Que eu deveria cantar as histórias e passar alegrias pras crianças. Como não sou ator, nem estaria fazendo uma mega produção musical e sim um show, que me paramentasse pra isso (por isso, o figurino que se vê nas fotos). Optei pela simplicidade, já que as canções são tão boas que, por si só, são assunto e cenário do show. Já fiz cerca de 25 apresentações e contabilizamos um público de 15 mil pessoas. Isto de junho a dezembro! São espaços grandes e um público que, na grande maioria das vezes, não me conhecia, mas foi atraído pela releitura das canções. Eu não faço nenhum personagem, sou eu mesmo, e me divirto muito.

Qual o seu critério de seleção das músicas ? Além das que estão no CD, quais estavam/estão no show?
Escolhi as mais alegres, até por que, senti que as tristes, como 'Corujinha', por exemplo, que é linda, dispersam um pouco as crianças. Eu teria de contar com mais recursos cênicos no show para envolvê-las nestes números. Gravei no CD exatamente as que canto no show. Levei o Projeto à Movieplay, que lançou meu disco anterior, tive grande apoio deles. O Projeto também precisou da aprovação dos herdeiros de Vinícius. Foi um pouco trabalhoso, mas pude contar com a sensibilidade de Luciana Soares, que responde por isso, e consegui, graças a Deus!

Fale um pouco da obra de Vinicius, porque ela consegue
ser assim, tão atemporal,
sempre conquistando mais e mais crianças?

Pois é. Em 2005, serão 25 anos sem ele e 25 anos do lançamento original da 'Arca'. Eu fiquei pasmo nos primeiros shows, pois a platéia cantava praticamente todas as músicas, quer dizer, elas estão sendo passadas, transmitidas, se tornaram 'clássicos'. Quando eu canto 'O Pato' ou 'A Casa', por exemplo, é uma catarse. Os pais deliram e as crianças também. Que magia tem essa obra? Aí está o segredo de Vinícius e seus parceiros. Acho que é a sinceridade. Ele realmente se sentiu criança na hora em que as compôs. Falou de animais 'menos badalados', como a pulga, a formiga. Falou da solidão, como por exemplo em 'A Casa', falou do tempo em 'O Relógio', enfim, abordou o cotidiano da criança, com aquele talento que só ele tinha (tem). Ritmicamente, é um trabalho muito brasileiro e muito rico. Tem samba, chorinho, maxixe, baião... Enfim, é eterno! Quero ver daqui a uns 20 anos, as pessoas virarem pra mim e dizerem: 'Eu cresci ouvindo aquele seu disco.....', vai ser engraçado e tomara que aconteça!

Como você vê o que tem sido feito hoje para este público?
Muita gente critica, mas há exceções, como os trabalhos do
Palavra Cantada, que são legais.

É exatamente como na música adulta: Muita coisa boa e muita porcaria, inclusive, há uma produção infantil regional imensa, que nem todos conhecem. Trilhas de peças que são encenadas em todo o Brasil. Artistas como Adriana Calcanhotto e Chico César também lançaram projetos infantis. O Palavra Cantada é um precursor, abriu caminho pra uma música mais pensante, mas tem muita gente aí. Enganar criança é impossível, se não tem verdade, eles viram a cara pra ti, não importa se você é famoso ou não. Mas que tem muita porcaria, tem....

Fale das músicas. Alguma, em particular, te toca mais?
'A Casa' tem tudo a ver comigo. É a interpretação mais emocional do disco, que, aliás, foi gravado 'ao vivo' em estúdio. As 11 faixas foram registradas numa sessão de gravação, depois, houve mais três pra coberturas, vocais e colocação de baixo. Enfim, foi tudo direto, com todos nós arrepiados e prontos pra sermos canais de algo muito além da nossa compreensão. Como eu disse, o caminho foi o da simplicidade, pois os discos originais ainda estão aí e são irretocáveis. A nata da MPB interpretou as canções e os arranjos têm orquestra, cordas e etc. Fiquei pensando em como seria mexer com uma obra deste peso, mas fiz sem nenhuma pretensão e cheio de amor.

Como tem sido a reação das crianças nos shows?
A crianças reagem super bem. Tenho feito alguns Projetos de inclusão social. Em novembro, estive no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, para 1.200 crianças de todo o Estado. Algumas nunca tinham ido ao Teatro. Foi arrepiante vê-las todas cantando e louvando Vinicius de Moraes. Muitas vinham me dizer que jamais iriam se esquecer daquilo. O mérito não é meu, é de Vinícius, com toda certeza. Ouso dizer que já senti que o Poetinha aprovou nosso modesto projeto e sempre peço sua bênção antes de cantar suas músicas.