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nove anos de carreira, três discos lançados, Carlos Navas resolveu,
no ano passado, investir em outra seara. Mais precisamente, a do público
infantil. Com a cara e a coragem, formatou o show 'Na Arca de Noé',
com as eternas canções do poetinha Vinícius de Moraes.
Clássicos como 'Aula de Piano', 'O Pato', 'A Pulga' e 'As Abelhas'.
O espetáculo, ele começou a apresentar pelos palcos do Brasil
em junho de 2004. Agora, o repertório ganha registro em CD com 'Algumas
Canções da Arca...', que leva a chancela da Movieplay. O disco
também pode ser adquirido no site oficial do artista (www.carlosnavas.com.br).
Em entrevista ao HOJE EM DIA, Navas falou sobre o novo desafio, discorreu
sobre a obra do poetinha e sobre o mercado da música direcionada
à petizada. Confira, a seguir.
O CD é
fruto do espetáculo musical 'Na Arca de Noé'. Porque você
resolveu montar um show direcionado ao público infantil?
Na verdade, sempre quis fazer algo dirigido às crianças.
Esperava, ingenuamente, que fosse convidado, mas, analisando meu caminho
musical, que nada tinha de infantil, percebi que era melhor eu ir à
luta. No final de 2003, após o lançamento do disco 'Tanto
Silêncio', passei por um período emocional bastante difícil,
tive depressão. Como sou espiritualizado, recebi este aviso do
Universo: Eu deveria me aproximar mais da energia das crianças.
Senti que a iniciativa seria musical. Lembrei-me das canções
da 'Arca de Noé', que, definitivamente, marcaram minha vida. Fui
escutá-las novamente, já separando aquelas às quais
sentia que poderia dar uma interpretação diferente, renovada.
Procurei dois músicos (Adriano Magoo/pianista e Wlájones
de Carvalho/ percussionista). Fomos formatando o repertório e,
enquanto isso, mandava o Projeto do Show para os Sesc's do interior de
SP. Acabaram se interessando e estreamos dia 6 de Junho, num Ginásio
em Bauru, para cerca de 600 pessoas.
Como você
avalia o feedback deste trabalho?
Estava muito preocupado, pois meu discurso de palco e repertório
nada tinham de infantil. Antes de fazer o show, tive uma breve conversa
com a atriz Clarisse Abujamra, com quem divido o palco há quatro
anos (espetáculo 'Por um Triz'). Ela me deu toques fundamentais:
Que eu deveria cantar as histórias e passar alegrias pras crianças.
Como não sou ator, nem estaria fazendo uma mega produção
musical e sim um show, que me paramentasse pra isso (por isso, o figurino
que se vê nas fotos). Optei pela simplicidade, já que as
canções são tão boas que, por si só,
são assunto e cenário do show. Já fiz cerca de 25
apresentações e contabilizamos um público de 15 mil
pessoas. Isto de junho a dezembro! São espaços grandes e
um público que, na grande maioria das vezes, não me conhecia,
mas foi atraído pela releitura das canções. Eu não
faço nenhum personagem, sou eu mesmo, e me divirto muito.
Qual o seu
critério de seleção das músicas ? Além
das que estão no CD, quais estavam/estão no show?
Escolhi as mais alegres, até por que, senti que as tristes, como
'Corujinha', por exemplo, que é linda, dispersam um pouco as crianças.
Eu teria de contar com mais recursos cênicos no show para envolvê-las
nestes números. Gravei no CD exatamente as que canto no show. Levei
o Projeto à Movieplay, que lançou meu disco anterior, tive
grande apoio deles. O Projeto também precisou da aprovação
dos herdeiros de Vinícius. Foi um pouco trabalhoso, mas pude contar
com a sensibilidade de Luciana Soares, que responde por isso, e consegui,
graças a Deus!
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Fale
um pouco da obra de Vinicius, porque ela consegue
ser assim, tão atemporal,
sempre conquistando mais e mais crianças?
Pois é. Em 2005, serão 25 anos sem ele e 25 anos do lançamento
original da 'Arca'. Eu fiquei pasmo nos primeiros shows, pois a platéia
cantava praticamente todas as músicas, quer dizer, elas estão
sendo passadas, transmitidas, se tornaram 'clássicos'. Quando eu
canto 'O Pato' ou 'A Casa', por exemplo, é uma catarse. Os pais
deliram e as crianças também. Que magia tem essa obra? Aí
está o segredo de Vinícius e seus parceiros. Acho que é
a sinceridade. Ele realmente se sentiu criança na hora em que as
compôs. Falou de animais 'menos badalados', como a pulga, a formiga.
Falou da solidão, como por exemplo em 'A Casa', falou do tempo
em 'O Relógio', enfim, abordou o cotidiano da criança, com
aquele talento que só ele tinha (tem). Ritmicamente, é um
trabalho muito brasileiro e muito rico. Tem samba, chorinho, maxixe, baião...
Enfim, é eterno! Quero ver daqui a uns 20 anos, as pessoas virarem
pra mim e dizerem: 'Eu cresci ouvindo aquele seu disco.....', vai ser
engraçado e tomara que aconteça!
Como
você vê o que tem sido feito hoje para este público?
Muita gente critica, mas há exceções, como os trabalhos
do
Palavra Cantada, que são legais.
É exatamente como na música adulta: Muita coisa boa e muita
porcaria, inclusive, há uma produção infantil regional
imensa, que nem todos conhecem. Trilhas de peças que são
encenadas em todo o Brasil. Artistas como Adriana Calcanhotto e Chico
César também lançaram projetos infantis. O Palavra
Cantada é um precursor, abriu caminho pra uma música mais
pensante, mas tem muita gente aí. Enganar criança é
impossível, se não tem verdade, eles viram a cara pra ti,
não importa se você é famoso ou não. Mas que
tem muita porcaria, tem....
Fale
das músicas. Alguma, em particular, te toca mais?
'A Casa' tem tudo a ver comigo. É a interpretação
mais emocional do disco, que, aliás, foi gravado 'ao vivo' em estúdio.
As 11 faixas foram registradas numa sessão de gravação,
depois, houve mais três pra coberturas, vocais e colocação
de baixo. Enfim, foi tudo direto, com todos nós arrepiados e prontos
pra sermos canais de algo muito além da nossa compreensão.
Como eu disse, o caminho foi o da simplicidade, pois os discos originais
ainda estão aí e são irretocáveis. A nata
da MPB interpretou as canções e os arranjos têm orquestra,
cordas e etc. Fiquei pensando em como seria mexer com uma obra deste peso,
mas fiz sem nenhuma pretensão e cheio de amor.
Como
tem sido a reação das crianças nos shows?
A crianças reagem super bem. Tenho feito alguns Projetos de inclusão
social. Em novembro, estive no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, para 1.200
crianças de todo o Estado. Algumas nunca tinham ido ao Teatro.
Foi arrepiante vê-las todas cantando e louvando Vinicius de Moraes.
Muitas vinham me dizer que jamais iriam se esquecer daquilo. O mérito
não é meu, é de Vinícius, com toda certeza.
Ouso dizer que já senti que o Poetinha aprovou nosso modesto projeto
e sempre peço sua bênção antes de cantar suas
músicas.
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