É verdade que, se a música e a literatura têm um parentesco quase imemorial, no caso brasileiro ele vem sendo estreitado graças ao esforço de músicos e poetas que fazem encontrar suas artes. A reprodução deste modelo longe dos grandes centros fonográficos mostra o quanto ainda pode ser explorada a música que a palavra poética tem.
"Pássaro Passará", CD da poeta Sueli Batista inspirado em seu livro homônimo, inscreve-se neste panorama, agregando a ele as cores locais de um Centro-Oeste ainda desafortunadamente apartado do imaginário popular e da identidade brasileira. Manoel de Barros e Raquel Naveira, dois expoentes da literatura de Mato Grosso já vertidos em música, deram passos importantes para essa aproximação. O caso de "Pássaro...", contudo, é diferente.
Em primeiro lugar, porque, de certa maneira, apresenta a um público mais amplo a poesia de Batista, antes restrita a seu círculo regional. Alzira Espíndola e Lucina compuseram as músicas para os poemas; Carlos Navas incumbiu-se de interpretar as nascentes canções; Tetê Espíndola fez participações especiais em duas faixas; Clarisse Abujamra emprestou sua doçura incisiva a três poemas. Nomes de expressão nacional que avalizam uma autora que tem o que mostrar.
Nisso, aliás, está sua segunda especificidade. Embora fortemente ligada à cidade de Cuiabá, Batista nasceu e viveu por muito tempo em São Paulo. Daí o despontar de um olhar desacostumado às singelezas do Estado que abriga a Chapada dos Guimarães. "Troca de Experiências" (música de Alzira Espíndola) é a faixa que melhor representa este aspecto -- que é também um trunfo. Em dueto harmônico, a voz rascante de Tetê encontra a de Navas, agora mais madura e suave, para reforçar as implicações da mudança geográfica: "troquei uma parte do que fui / por tudo que hoje sou".
Mesmo pecando no nível do detalhe -- com imagens como "a areia da ampulheta / vai se afinando" ou a assunção de um sujeito coletivo em "nunca sabemos o que a vida / vai nos oferecer / em sua bandeja de mistérios" --, a poeta que agora conhecemos mostra-se sensível, criativa e eficaz no tom geral de suas obras. É o caso da rigorosamente lírica "Poema da neutralidade" (música de Alzira Espíndola) ou fa faixa-título (música de Lucina), que alça vôo para além da inspiração inicial de homenagear Vladimir Herzog.
Investe-se, aliás, de um sentido autobiográfico, às avessas. Antes "preso, privado ao cantar", o pássaro de Sueli Batista canta liberto e libertário, desejoso e capaz de se projetar solidamente no cenário da poesia da canção popular. (R.S.)